Pacioli, então, mostra um slide, no qual aparece a parte final das demonstrações contábeis e lá está o "Relatório dos Auditores Independentes Sobre as Demonstrações Financeiras". Ele diz:
- Vamos entender o que os auditores disseram. Logo no início, no item 3.1, lemos que "a circularização dos fornecedores, dos bancos, dos empréstimos bancários e dos principais credores não foi respondida a tempo". O mesmo ele fala sobre os advogados do clube em relação aos processos judiciais. Mas, o que será essa tal de "circularização" e qual o problema disso?
Enquanto os alunos refletem e tentam imaginar o significado dessa ressalva, o professor continua sua explanação:
- Circularização é uma das principais técnicas de auditoria utilizada para investigação e confirmação dos dados apresentados. Consiste em revalidar junto a terceiros envolvidos a veracidade dos documentos, os valores apresentados e as estimativas feitas. Assim, o auditor determina que a auditada (o Flamengo, no caso) envie uma carta (ou email) para terceiros solicitando informações para efeitos de auditoria. Esta carta deve ser respondida diretamente à empresa de auditoria, para diminuir o risco de fraudes.
Um aluno levanta a mão e pergunta:
- Professor, então podemos dizer que há uma falha da empresa de auditoria por não ter solicitado as cartas em tempo hábil?
- Não - responde o professor - O tempo provavelmente foi suficiente para que houvesse alguma resposta. O problema é que, por algum motivo, os terceiros não responderam. Em outras palavras,
não é possível confirmar se alguns dos principais números do Balanço são reais. Assim, os bancos, por exemplo, não confirmaram os saldos devedores dos empréstimos ou se haveria alguma outra conta não analisada, os fornecedores não ratificaram os saldos existentes no
contas a pagar, bem como os advogados do clube não corroboraram os passivos judiciais, que sabemos serem críticos no Flamengo. Isto é inaceitável. Há quem defenda que a falta de confirmação de saldos nas circularizações deveria ser objeto de um parecer com "
abstenção de opinião" (quando o trabalho de auditoria não pode ser realizado) e não com "
aprovação com ressalvas" (impropriedades que não comprometem as demonstrações). O pior é que no balanço de 2010 ocorreu a mesma coisa.
Após ver a cara de espanto em alguns alunos e de estranha naturalidade em outros, o professor falou à plateia:
- Também vale o destaque das quartas e quintas ressalvas. No primeiro caso, é informado que o clube ignorou nos números apresentados uma multa de aproximadamente R$ 33 MM aplicada pelo Banco Central, decorrente de infrações cambiais, por ter recorrido da decisão. Como não há garantia da vitória no recurso administrativo feito pelo Flamengo, o valor deveria sim ter sido contabilizado pois é recomendado que as demonstrações sejam conservadoras, nunca antecipando lucros e sempre prevendo possíveis prejuízos. No outro caso, os auditores informaram que não têm como confirmar a provisão R$ 8 MM feitas para as perdas. Ou seja, o clube previu uma inadimplência no valor acima e a auditoria não conseguiu confirmar se a mesma poderia ser maior.
Receita da TV e antecipações
- Outra coisa interessante a observar é o crescimento da receita de TV já no Balanço de 2011. Como vimos, o novo contrato de transmissão foi o principal responsável pela melhora dos indicadores. Mas, o contrato não seria válido somente a partir de 2012? Como a receita em 2011 pode ter aumentado?
Alguns alunos responderam que a mesma só poderia ter sido adiantada. Então, o mestre pega um slide e diz:
- Vocês se lembram na
aula anterior quando expliquei o regime de competência? Assim, uma receita só poderá ser lançada como resultado no exercício a que se referir. Ou seja, mesmo que haja antecipação, o valor aumenta o caixa, mas não é considerado receita ainda. Logo mais veremos como se faz tal lançamento. O que importa aqui é que não foi apenas o Flamengo que já aumentou a receita no ano da assinatura do contrato (e não a partir de sua vigência). Por isto, minha suposição é de que tenha ocorrido alguma luva para que alguns clubes (não todos) assinassem. A do Flamengo deve ter sido próxima a R$ 50MM, como podem observar no quadro (figura acima).
- O problema é que algo relevante assim deveria ter sido melhor explicado. Do contrário, cada um supõe alguma coisa. O lugar correto é nas notas explicativas. Como o próprio nome revela, servem para explicar alguns números. Elas ficam logo abaixo dos demonstrativos e acima do parecer de auditoria, já visto.
- Mas, já que alguns aqui presentes tocaram no assunto da antecipação, ela realmente existiu. Como só será receita no futuro e, antecipadamente, entrou no caixa, os manuais de contabilidade recomendam que a contra-partida seja uma conta do passivo. No Balanço do Flamengo, podemos ver as contas Receitas a Realizar no circulante (ou seja, o que foi antecipado de 2012) e Receitas Diferidas (que só irá se tornar receita nos anos subsequentes, pois estão no Exigível a Longo Prazo).
- Agora, algo estranho é a comparação das receitas antecipadas com o contas a receber. E aí eu não consigo nem fazer suposições, exceto a de que o próximo presidente poderá ter problemas de fluxo de caixa.
Conclusão
Um aluno, então, pergunta:
- E qual foi afinal sua conclusão, professor?
- Só a de que os demonstrativos do Flamengo são complexos demais para qualquer um fazer um diagnóstico preciso, qualquer que seja este diagnóstico. Mas, foi um bom exercício. Se algum de vocês quiser volto ao tema desenvolvendo mais algum conceito. Comentem aí!.